segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

O destino

Este é apenas um conto que escrevi, um romance.

Era fevereiro de 1993, o tempo estava muito quente e dali alguns dias seria Carnaval. Sara costumava viajar para o litoral paulista sempre que surgiam feriados prolongados, gostava muito da pitoresca cidade Boiçucanga ou de São Vicente. Mas, os amigos queriam ir para Mongaguá. Ela definitivamente não gostava de lá, achava que era uma praia sem graça embora fosse um lugar escolhido por muitos. Daquela vez, Sara fez a vontade dos amigos e foi para Mongaguá mesmo contrariada.
A cidade estava cheia de visitantes, todos os lugares estavam lotados, havia fila pra tudo. Durante o dia, todos disputavam um lugar na areia para colocarem o guarda-sol, a barraca, as cadeiras... durante a noite, iam procurar diversão nos barzinhos, nos quiosques onde a música rolava a noite inteira até o amanhecer, iam na danceteria da cidade ou na avenida para assistirem a escola de samba local passar. Depois que a escola passava, todos pulavam o carnaval na rua. Menos Sara, ela sentou-se no banco da praça central, próximo à feirinha e lá ficou observando o movimento entediada, quando de repente, passou por ela um homem lindo, desses que habitavam seus sonhos mais secretos. Trocaram um olhar e um sorriso até que ele se aproximou.
Sara era uma morena de olhos verdes e cabelos longos, estava bronzeada e usava um vestido florido. Tinha 19 anos. Márcio era loiro, de olhos cor de mel, um físico forte e tinha os cabelos na altura dos ombros, lisos do tipo escorrido, ele mais parecia um surfista. Tinha 21. Ele se apresentou e os dois se entenderam logo de cara. Havia uma química entre eles. O papo era agradável e a noite estava linda. Falaram sobre músicas, viagens, faculdade e uma infinidade de assuntos. Sentiram-se atraídos um pelo outro. Riram, dançaram, flertaram e foram dar umas voltas à beira-mar. Foi ao som das ondas quebrando nas rochas, sob um céu estrelado e uma lua exuberante que eles se beijaram pela primeira vez.
Sara desejava que aquela noite jamais terminasse... e pensar que ela nem queria estar ali... Os dias que se seguiram foram tão especiais quanto aquela noite. Se pudessem, nunca mais iriam embora. Viveriam lá pra sempre. Mongaguá se tornara um paraíso tropical aos olhos de Sara. Márcio sempre gostou da cidade. Aqueles quatro dias de Carnaval foram os melhores dias da vida de Sara. A felicidade de ambos atraía a atenção de todos, que belo par formavam!

Um dia antes da partida

Terça à noite se despediram pois no dia seguinte voltariam para casa, ela pra São Paulo e ele para Santo André, no ABC Paulista. Por que será que sentiam uma angústia no peito? Não era pra ser assim, pois combinaram de se encontrar, estavam namorando. Nunca nenhum dos dois iniciou um namoro assim tão rápido... porém, algo mágico aconteceu entre eles, parecia que se conheciam havia muitos anos. E nenhum dos dois conseguia explicar pra si e nem falar para o outro sobre aquela sensação ruim que sentiam.
Fizeram amor na praia de madrugada, dentro de um barco ancorado na noite da despedida.

A partida

A quarta-feira chegou e os dois retornaram para suas casas, ele foi logo de manhã e ela no final da tarde... voltaram para suas vidas.
Uma semana depois da chegada, Sara não compreendia a razão dele não telefonar. Uma amiga disse - então telefone você!
Foi nesse momento que ela sentiu uma dor invadir seu peito, o desespero tomou conta do seu ser. Explicou para a amiga que somente Márcio havia anotado o telefone, ela ficou de anotar depois e acabou partindo sem fazer isso, uma falha, um esquecimento. Estava na dependência dele, mas teria ele perdido o número? Ou simplesmente jogado fora? Afinal, como dizem por aí "amor de praia não sobe a serra"...
Sara pensava em cada minuto vivido ao lado de Márcio, tentava extrair da memória algo relevante que pudesse ajudá-la a reencontrá-lo. Eles conversaram sobre os mais variados assuntos. Falaram sobre passado, presente e futuro, sobre qualidades e defeitos, pontos fortes e fraquezas, muitas eram as coisas em comum. Fizeram tantos planos e ainda assim, tudo o que sabiam era o primeiro nome e a cidade do outro, não havia informações necessárias para se localizarem.
Santo André não é longe, mas dependendo do bairro em que se esteja fica fora de mão. Em contrapartida, procurar alguém em São Paulo é como procurar uma agulha no palheiro ou, pior ainda, como procurar uma correntinha perdida caída no oceano.
Sara pensou em inúmeras coisas, fazer cartazes, faixas e outdoors espalhando-os por Santo André inteira. Pensou, pensou e só pensou. Ao longo dos anos, a cada feriado, ela ia para Mongaguá sempre na esperança de revê-lo. Andou por todos os lugares por onde passaram naqueles inesquecíveis dias de Carnaval... em vão.

E o tempo passava...

As preocupações do dia-a-dia, a rotina do cotidiano e o passar dos anos foram deixando aqueles momentos cada vez mais distantes, no passado. Esquecer... Sara não esqueceu, só que o tempo fez parecer como cenas de um filme, como se ela não tivesse vivido e sim assistido a um lindo romance. Algumas noites, ela sonhava com Márcio e acordava triste, perguntava a si mesma se pelo menos por um breve instante ele se lembrava dela. Quanto tempo ele teria levado pra esquecê-la? Será que chegou a se lembrar? Por que nunca telefonou?
O tempo avançava e a vida seguia seu curso...
Sara casou-se em 2004, aos 30, 11 anos após o inesquecível Carnaval de 1993. Gostava muito de seu marido, Rui, um homem inteligente, bonito e apaixonado por ela. Tiveram um filho. Eram felizes sem dúvida, eram muito felizes! Teria Márcio se casado também? Eram raros os momentos em que ela pensava nele agora, mas ainda pensava.
O casamento de Sara durou 6 anos, ela lamentou o fim dessa união que parecia ser promissora, pra vida inteira. Ficou realmente abalada.

O inesperado

Com o fim da relação, Sara decidiu fazer uma viagem pra esparecer e escolheu Veneza. Um lugar romântico, ideal para estar acompanhada, entretanto, não havia problema, ela sempre quis conhecer essa cidade e estar só não a impediria de viajar.
A Itália parece ter magia, contagia os turistas e Sara ficou fascinada por seu encanto. Sentia-se um pouco culpada por deixar o filho com sua mãe, mas precisava desse tempo pra repor as energias.
No 3º dia, estava num caffè e, distraída, admirava o local e as pessoas entusiasmadas. Observava os casais apaixonados e pensou em sua falta de sorte no amor. Nesse momento, ela sentiu uma mão tocar seu ombro e uma voz dizer:

- Come stai, bella mia?

No que olhou, sentiu seu coração parar por alguns segundos, depois começou a bater cada vez mais forte, a acelerar, a disparar... até que ela faleceu... (ahahaha brincadeira, não resisti). Sara nada conseguiu dizer, apenas sorriu, era Márcio.
Após um momento de pura emoção, ela respondeu:

- Non potrei stare meglio!

Desataram a rir. Finalmente tinham se reencontrado. Eles se abraçaram fortemente, deram um beijo demorado cheio de saudades e perceberam que nada havia mudado. Eram as mesmas sensações, a mesma leveza, corações descompassados. Conversaram sobre exatamente tudo, tudo o que viveram desde aquele Carnaval até os dias atuais.
Márcio contou que ao chegar em casa, procurou o pedaço de papel com o número do telefone de Sara, mas havia perdido. Falou da tristeza dessa separação e de toda sua vida desde então.
Ele se casou duas vezes, o primeiro casamento resultou num divórcio, o segundo num luto há pouco menos de um ano. Teve dois filhos com a primeira esposa e uma filha com a segunda. Não pôde negar que foi feliz.
Finalmente, ambos estavam livres para recomeçarem de onde pararam tantos anos atrás. Desta vez, não cometeriam os mesmos erros. Trocaram todas as informações possíveis e imagináveis. Em 93, sequer possuíam um endereço de e-mail...
A conversa foi longa e animada, nem perceberam a hora passar.
Sara e Márcio viveram dias inusitados em Veneza, passearam pela Basílica de San Marco, pelos canais e por todos os pontos turísticos.
Ela está linda - pensava ele, uma beleza de mulher e não de menina. Já ele, tinha cortado os cabelos, estava mais sério, maduro, porém, mais atraente seria impossível - refletia Sara.
Muitas vezes, não sabemos por qual razão é necessário mudar as direções. Nós, simples mortais, não compreendemos, mas existe uma razão maior que nos faz seguir outros rumos e nos vemos tendo que abrir mão de desejos e planos. Porém, o que é de cada um... é e ninguém pode mudar.
E foi assim, o mesmo destino que os separou, os uniu novamente quase 18 anos depois, desta vez para sempre.

Sandra

28 comentários:

Luisa L. disse...

Sandra!!

Bom ano Novo! Olha vou postar o teu conto sim?

Beijinhos
Luísa

PS: Depois falamos, eu tenho de ir dormir muito depressa! rsrs

Sandra F. disse...

Olá Lu...

Ok. Hummm dormir muito depressa é?? Sei, sei rsrsrs...
Excelente ano pra vc tbm. Felicidades e obrigada pela divulgação.

Beijos

Gabriel disse...

voce é apaixonante, sabia?
Parabens beijos

Sandra F. disse...

Obrigada, honey rs... assim eu até acredito!
Beijos!

disse...

bom dia amiga querida!!!
Claro que vamos fazer parceria, vou colocar teu link lá no blog!!

Um bjão e sucesso pra nós♥

Sandra F. disse...

Legal, Regina!
Sucesso pra nós, obrigada. Beijos.

Josy Nunes disse...

Oi,
Sandra,
Tô te seguindo amiga adorei o seu blog.
Uma linda história e realmente não dá pra fugir do destino é uma coisa muito louca mesmo!
beijão no seu coração e fica com Deus

Sandra F. disse...

Oi Josi

Muito obrigada, beijos e fica com Deus!
Feliz 2010!

Lilian disse...

Olá queridas amigas Luísa e Sandra.

Parabenizo-as, a Lu pela postagem e à Sandra, pelo magnífico texto.

Uma leitura gostosa que prende o leitor ao conto, do início ao fim.
Emocionante. Adorei.

CArinhoso e fraterno abraço,
Lilian

Joselito disse...

Grande Sandra, na verdade nem parece um conto e sim um relato.

maximumforma disse...

Meu seu blog é espetacular show, not°10 desejo muito sucesso em sua caminhada e objetivo no seu Hiper blog e que DEUS ilumine seus caminhos e da sua família
UM grande abraço e tudo de bom
Ass:Rodrigo

Sandra F. disse...

Lilian, Grande Joselito e Rodrigo

Muito obrigada pela presença aqui e pelos comentários. Voltem sempre rsrs.
Sempre que possível, estarei visitando vocês também.
Obrigada realmente. Grande abraço!

Isabel Ruiz, disse...

Olá Sandra, a Luísa indicou e vim conferir. Adorei! Parabéns, é um conto muito envolvente.
Beijos
Bel

Sandra F. disse...

Olá Isabel

Muito obrigada pelo carinho, fico feliz que tenha gostado.
A Luísa é uma grande amiga.
Seja bem-vinda, bjs!

Principe Encantado disse...

Amiga estou com muitas, mui8tas saudades de você.
Este conto esta muito real, cada dia mais apurado seu dom.
Abraços forte

bruninha-bbs disse...

Adorei seu post
Que vc tenha muito sucesso este ano



Abraços

Sandra F. disse...

Ilustre Sapo e Bruninha

Muito obrigada, tenham um ano incrível. Grande abraço!

amigodcristo disse...

Sandra..!!
Graça e paz seja contigo minha querida amiga!!!
Bom sinto e tenho certeza que suas festas comemorativas de fim de ano foram em paz..!
Fiquei muitofeliz de ouvir de você lá no blog, e mais feliz ainda de encontrar você esboçando seu talento nato, com uma maestria sem igual, parabéns pelo seu belissimo conto, realmente a vida sempre nos oferece novas chances e novos acertos, muito lindo amei..!!!
Minha querida desejo a você e ao seu lindo principe Eder,,, e toda sua familia toda a sorte de bençoes de nosso Deus cercando vossos caminhos e corações, que a bendita graça de Deus seja abundante entre vós!
Fraternalmente o carinho de sempre !
Roberto Falbo

Sandra F. disse...

Falbo, meu querido, muito obrigada. Suas palavras sempre me deixam feliz, sei que elas veem do coração.
Você é uma pessoa maravilhosa e desejo a você apenas coisas boas pra esse ano que está começando.
Muito obrigada mais uma vez, forte abraço!

Compadre Fulano de Tal disse...

Parabéns Sandra, leitura gostosa, leve...invista nisso menina, rsrs
compadre Fernando.

Sandra F. disse...

Rsrs Compadre Fulano de Tal? Gostei rsrs, diferente!
Muito obrigada, estou pensando nisso mesmo rs.
Abração!

osmar castanha disse...

Oi, Sandra, na boa, achei este teu conto simplesmente lindo! E dono de uma simplicidade e singeleza na forma como as coisas vão acontecendo e fazendo com que os olhos, ávidos, não se cansem de chegar até o seu fim - ao contrário, tem-se a impressão do "ahhh, quero mais!!!"
Te escreví uma vez,e já faz tempo, que você estava escrevendo mais e melhor, lembra? Pois, então, hoje ouso afirmar que você está fantástica! Muito importante frisar que também domina a ortografia de maneira sóbria e gostosa... não são todos que têm esse dom! Um grande beijo do sempre amigo distante...

the Osmar

Sandra F. disse...

Uhuhuhu meu amig'Osmar rsrs...
Antes de mais nada, acabei de visitar seu blog http://www.borradordeideias.blogspot.com/
e seus textos são incríveis, falar a respeito da própria alma é pra poucos também...
Pra mim é um grande prazer receber sua visita e ler esse seu comentário.
Sim, eu me lembro de quando conversamos a respeito disso, fico feliz, emocionada e sem palavras pra agradecer.
Grande beijo!

Sissym disse...

Que maravilha. Eu estava lendo o texto e lembrava que o jeito de escrever parecia com alguem que eu conheço... e então cheguei ao fim, encontrei a Sandra. Bom como sempre.

Amiga, saudades e Feliz Ano Novo!

Sandra F. disse...

Olá, Simone!

Obrigada... feliz Ano Novo também a você!!

Claudine Ribeiro G. Netto disse...

Olá amiga Sandra, que lindo conto. Li duas vezes, este me prendeu a atanção. Realmente o que é nosso ninguém tira, mais tarde se reencontra.

Bjão.

Sandra F. disse...

Claudine, exatamente isso. Não adianta, o que é de cada um simplesmente é. Por outro lado, se algo ou alguém não estiver direcionado pra nós, podemos até ter por um tempo... só por um tempo.
Beijos.

JANA disse...

Nossa que lindo esse romance que acabo de ler.
Tenho uma história de amor que estou vivendo tbm, reencontrei meu melhor amigo de escola, tinhamos apenas 10 anos, 18 anos após nos reencontramos e nao nos separamos mais.

abraço